segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Á sombra dos ingrávidos

A voz rota. E talvez calar era mellor. Porque sae sempre rota voz, amarga, coma se entre dentes se criasen balas, balas certeiras contra os mortos, balas directas contra a miña voz. A miña voz rota. E talvez gritar para dentro a rabia. Que ninguén (me) ouza. A voz rota. Unha e outra vez, a mirada turbia e furtiva, ferrando tiros entre dentes, o tenso tiro de graza. Un tras outro. Tiros aos mortos, aos mortos que me rabuñan nas entrañas. Balas que lles furen os pulmóns e que respiren, que respiren, que alenten e florezan nas tumbas, alelís ou saramagos, entre trebóns e lapas, e apodrezan, en fin, os remorsos de raíces longas e as vareixas. Aos mortos, balas. Palabras coma dardos fulminantes sobre a mesa na terraza á sombra, á sombra dos ingrávidos, leo e calo. Negando a voz. A voz na boca seca, rota.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Medallas

Hai tempo decidín gardar as medallas na vitrina, que levándoas ao peito sempre hai aquel perigo de furalo co alfinete traidor e desinchalo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Palabras malditas

Se escribo
será para dicir nada
e aínda así será dito tanto
como non se cale. O infinito
é o mundo que está por rimar

co silencio.

O meu primeiro regalo de Reis






Amparo
Alumna do Colexio San Xerome, da Guarda



Grazas, Condado, por este pedazo de mar da túa man...

Póstumas previsões

Só não irei se morri e então até que vai ser complicado, penso eu, avisar. Respondia assim brevemente, apenas acrescentando beijos e outras reverências, a um pedido satisfeito que a faria —caso não morresse evidentemente— muito feliz durante duas horas. Duas horas completas se não viesse uma dor de ossos qualquer assombrá-la de humanidade. Foi nesse momento que a própria morte mascarada de acto súbito começou a apresentar-se como uma visagem perturbadora, uma ansiedade corpórea, em soma, uma má partida que não lhe devia consentir ao destino. Ó destino, nem sonhes! Não vou faltar à minha palavra!, gritou enquanto lhe virava as costas. Nem ouviu a facada, mas antes de tombar ainda conseguiu enviar a mensagem pré-gravada: Vendam o bilhete. Não posso ir... :(

domingo, 25 de dezembro de 2011

Carta

Queria eu escrever-te sem escritas,
deitar pelas mãos nuvens e orvalhos
como quem semeia nadas, assim de leves
e tão alados, música sem algemas
que ao papel a ferrem, sons esparsos
como vozes sussurradas nos fundos ameais
onde pé não pousa ou ouvido alcança.

Queria eu escrever-te brancas frases
que nem fossem munidas de palavras,
redigi-las em aragens ou carícias,
átomos de insubstância e tinta,
acordes desacordes com os tempos,
aroma impossível de japoneiro e o verde-
-criança duma seara em primavera.

Algum pedaço de alfabeto avulso
sacudir logo e embrulhar na seda
dum envelope azul-de-maré-cheia,
selar com borboleta num canto o destino.
Finalmente, levar aos Correios e dizer:

—Queira mandar, se faz favor,
para onde o mundo acaba.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A horticultora insuficiente

Por non só ver se medran se non as nabizas e os repolos corazón de boi, plantei ervellas. Agora é así: de cando en cando, asexo na horta na esperanza de que asome o rebento dalgunha herba produtiva. Polo de agora, para o meu desespero, continúan a gañar as outras, as que só gasto dan na terra e no corpiño e nin cabra alimentan. E falando en cabras, o meu futuro veciño gañou xuízo (e eu perdín fedores), pois trocou o bravún no ar polas verzas en terra. E está bonito de ver o campo, cos seus regos dereitiños —que eu ben llos vin trazar a cordel— e as plantas de follas a secar ao sol a poalla de onte día enteiro. Díxome, amais (pena non acordara antes!), que cando quixese, podía apañar para un cocido. Vou ter que plantar un porco, logo. El será tempo?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Só na boca o sal









Urbano Lugrís.
Mar dos argazos (1946)



Nesta prisión de ar contido, de mágoas,
rizóns e mastros sen vela, argazos
fosen os meus cabelos, nácara as uñas
de cunchas e os desexos meus,
dos ósos de náufragos mortos no sur
os meus ósos, de escamas e espiñas
vivas tamén os meus dentes vivos.

Cata o lenzo que me prende á proa,
mansa mortalla nas cores da serea...!
Non quero ser mascarón, nin reixas!
Quero é nadar arrolada entre anémonas,
marear os ventos ao lonxe das ribeiras
(xamais armas ao peito, nin aos ollos vazados),
unha illa ás veces e sempre horizontes.

Quero é tempestades, o pano negro fendido
no relampar quedo na nudez do océano,
e contento e azul ou verde, até cinéreo.
Non o norai de sombras que me amarra,
nunca este corpo de pau a abafarme as ansias!
Só nos labios un bucio, nin leme nin sextante;

só na boca o sal
                                     e no sal todos os mares.

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Homenaxe a Urbano Lugrís no 17 de decembro de 2011 pola Nave das Ideas (pódese descargar o libro, gratuitamente, nesa páxina)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E o teu frio...

Nem imaginas o tamanho do silêncio
em que me abandonaste para todas as noites
e eu ainda, viste?, te deverei desculpar,
porque está muito frio e penso
que o teu frio será maior e incurável,
um frio igual ao da terra nua, húmida,
sob as palavras geladas que já não dizes.
Não há lume que me conforte as mãos,
enquanto desfio letras nos poemas
com que tecer um cobertor de ausências
para aconchegar o silêncio que me cresce
por fora e dentro do rosto cansado.

domingo, 18 de dezembro de 2011

A chávena vazia

Doravante o senhor Eduardo e eu partilhamos mesa na esplanada. Os muitos anos privaram-o de ouvido e tem o aparelho —explica, abanando a cabeça— a arranjar. Sem ele nada ouve. Mas vê, observa, entre cigarrilha e cigarrilha, quem vem (boa tarde), quem vai (tudo bem?). Um dia viu-me chegar, seguiu os meus passos encaminhando-se à uma das mesas para contemplar a friagem nelas instalada e fez-me sinal com a mão de me sentar, se faz favor, na dele, abrigada pela parede e as varandas do primeiro andar. Olhei-o nos olhos e misturei um obrigada e um sorriso na dose exacta. Sentei. Ele retirou a chávena do café vazia com o seu pires e dobrou o jornal que já lera para deixar espaço ao meu triste descafé cheio e à Pedras, ao romance em curso e às mãos que seguram as páginas enquanto por ele navego nenhures.

Não tarda, ele aproveitará a boleia do carro dalgum conhecido que sobe a encosta para poupar aos seus brônquios avariados o esforço do regresso à escuridão da casa, onde a mulher lhe morre devagarinho.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Espaço Ademar

Envoltório

Para a Ana Saraiva, a 9 de dezembro de 2011

Hoje não tenho prenda para te oferecer.
Fiquei à espera na soleira de casa
olhando ao céu: nenhum mar se via,
nem pianos de vela a sulcarem os instantes;
apenas me sobram garças que se abrigam no sul
das minhas mãos solitárias,
amieiros nus que morrem pelas margens,
um grasnido frio de corvo, véus rasgados de névoa
e os caminhos a que nunca achei fim.

Não tenho prenda alguma que te dê.
Foi por isso que escolhi para ti
o meu mais viçoso rebento de abandono
embrulhado em azul de águas
sobre um fundo de areias raras.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

De amor (tamén o alleo)

A Carlotte ten andado a enfiárseme na cama. En canto poño o pixama e me deito aparéceme ela con toda a tramoia do salón dun hotel de Weimar, onde conversa co doutor Riemer mentres eu loito contra as pálpebras que me caen, sen apagar a luz aínda, sen aconchegarme no cabezal, coa esperanza de continuar a ouvilos. Eles deseguida notan que eu xa non lles presto atención porque calan, agardan que abra de novo os ollos, que me centre outra vez no que me queren contar. Haberá quen pense que é deferencia comigo, que se resisten a privarme do relato das súas respectivas relacións con Goethe, que espreito con curiosidade perversa nas últimas horas do día. Eu, non obstante, teño a certeza de que é exhibicionismo. Consideran o seu un diálogo sublime que merece unha ouvinte dedicada coma min. Non se contentan cun falar abafado entre as páxinas fechadas dun libro. Que lle vou facer? Se lles aturo a fachenda, dígovos, é polo interese que me provoca a inevitable aparición do poeta. E por amor propio.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Por que não irei ser nunca escritora reconhecida

Por vezes ocorrem-me frases brilhantes, só que depois aparece uma corrente de ar e, miséria, perdem-se. Que sejam brilhantes as frases não quer dizer que iluminem as pessoas, como candeeiros na rua ou o sol. Não. Quer dizer apenas que dariam para escrever um poema, um romance, um ensaio, uma enciclopédia universal, talvez a história do mundo desde o princípio que era o verbo até ao fim que serão os mercados. Apenas isso. Essas frases brilhantes, silenciosas como relâmpagos no alto-mar, queimam nas pontas dos dedos, podem em casos concretos abrasar a pele toda das mãos e desatar um delírio místico. Há aquela tendência impulsiva, instintiva, a largá-las, como se fossem a travessa de comida que alguém demorou horas a preparar e colocou encima do fogão a lenha para evitar que arrefecesse, que chegada a hora nos passa com muito amor e luvas de cozinha para levarmos à mesa a dizer olha que queima quando já a travessa está no ar e é tudo um caos de fome e cacos impossível de evitar. Os convivas, com a água na boca e os olhos no chão, experimentam a mesma sensação de vazio no estômago do que eu na existência trás procurar embalde a caneta que está sem tinta ou o telemóvel que ficou sem bateria para anotar a frase que fugiu, sumindo nas trevas a magna obra que me iria dar o reconhecimento mundial mas que já não irei partilhar. É pena.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Providencia

Cando falo polo baixo é cando digo as cousas máis importantes, cousas que nunca ninguén vai saber: o universo enteiro das persoas está perdido de ignorancia por carecer de ouvidos para a miña voz cando acorda. Por exemplo, ás veces, ilustro o vento ou trazo circunferencias onduladas entoando un re único e temperado. Os cans, que escoitan atentos estes meus deambulares fónicos, levantan moito as orellas e o nariz e sempre, sempre, abanan a cabeza cando coloco o punto final. Pode ser que despois saiamos de paseo ou non. Pode ser que despois eu lles agarime o peito e eles a min nada. Pode ser ou non ser que sexa a hora de cear, que as rutinas tenden a quebrarse pola escuridade dos extremos. O fundamental son as frases que pronuncio antes, con algún interrogante e varias exclamacións. Xa vin algún pardal emudecer de pasmo e cento doce grilos de ollos desorbitados (isto só acontece no verán) improvisaren unha orquestra que corrobora a consistencia do meu pensamento murmurado. É unha catástrofe enorme isto de eu falar e o mundo ser un ente xordo, pero se gritase, o meu corpo de louza barata escacharía e algún can podería ferir unha pata nunha lasca aguzada. Non queremos iso.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pesca subfluvial







Praia de Goián

Dous armarios

En puntos diferentes dunha casa en penumbra cunha luz ao fondo existen dous armarios: desde un deles vese unha parte mínima do outro; desde o outro nada se ve do un. No outro hai un elefante, que non é elefante porque non ten trompa, senón, na irrealidade, un oso xigante de peluche vivo. Cada vez que o elefante oso de peluche tenta saír do outro, un cativo corre entre asustado e divertido a agachar no un. Todo parece chistosísimo. É así nun rebobinar continuo no que o elefante oso de peluche só consegue pór unha pata fóra do armario, pois o resto do corpo atóaselle na porta. Os adultos escangállanse de risa as tres ou mil primeiras veces. Logo, aborrecidos, conclúen que aquela historia é absurda e desconéctanse. É entón cando comprenden que era un soño e eu, que xa acabei de mexar, volvo para a cama. Antes de fechar os ollos, bebo un grolo de auga e escribo.

domingo, 20 de novembro de 2011

A horta

Ver os repolos medrar como quen ve pasar navíos. Nada máis, nin menos. No fondo é inventar un motivo para escribir. Razóns non se necesitan. A escrita é unha arroutada, como arroutada é a horta. Un amigo díxome que estaba a aprender a escribir na terra. Mesmo con liñas tortas, como deus, penso eu. Porque agora son un deus doméstico, á miña medida, que crea vida para devorar. É ademais un xeito subtil de asentar raíces e marcar límites: está terra é miña, talvez non legalmente, pero é de meu. É aquí onde eu son, por fin, onde constrúo a miña illa, rodeada dun foxo de distancias, de negativas, de recusas. Só de min non fuxo máis.

Mentres leo, mentres escribo, sinto reverberar os golpes da eixada nos pulsos, a eixada que racha a terra, o anciño que a peitea, o sacho a repenicar contra os croios. O corpo resiste os embates. Ningunha dor que poida sobrevir supera a que xa está instalada.

Cultura é isto...











O resto são histórias.
 (Repolhos "coração de boi" e nabiças)

sábado, 19 de novembro de 2011

domingo, 13 de novembro de 2011

A derrota do doutor Faustus

Delicio-me na esplanada com o encontro entre o músico e o diabo. Também eu sinto, às vezes, um frio glacial, ou quem sabe não será a debilidade que a longa caminhada me inferiu no estômago. Entro no café e dirijo-me ao balcão. O Zé sorri como se me fosse vender uma enciclopédia a prestações. O que é que eu queria?, hesito. E contemplo os bolos, que se me insinuam provocadores, despidos até de preconceitos. Um, mais redondo, enche-me o olho. Um desses, faz favor, peço. Destes? Desses. Há um silêncio. Ia saindo e lembro o que esqueci: Como é que se chama?, pergunto. Nós dizemos bolo de deus.

Já viu, senhor Luís?, mostro enquanto sento de novo à minha mesa, Cá fora o diabo a tentar-me a um pacto e lá dentro foi o próprio deus que me seduziu.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vendo vir o día...







Pesqueira Vella. Goián



A chuvia veu despois.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

Pescador de névoas









Entre o Castelinho (V. N. de Cerveira)
e a praia de Goián

sábado, 5 de novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Medras

A pequena vai da man da nai. Como non entendo de proporcións entre corpos e anos, doulle oito. É unha idade idónea para unha criatura que pregunta e agarda respostas. No ceo, por riba das lámpadas do camiño, sorrí un fino risco branco de lúa. Se fose máis fino, ninguén o vería, talvez por isso a lúa pensou que ese era o tamaño mínimo en que un sorriso podía suscitar interese.

—A lúa vai engordar?

A nai responde unha ignorancia disimulada, un baleiro sen imaxinación. Dá desimportancias á lúa.

—Xa veremos —di a nai, arrastrando o erre e a preguiza.
—"Xa verremos"?
—...
—Que é "xa verremos"?
—De ver e de remos. Ver remos.

A lúa está querendo empreñar no ceo. Está querendo engordar para que a pequena vexa o futuro dentro dela. Sen evasivas. No pano océano da noite ábrese apenas nunha fenda fina, branca, coma un ce deseñado a trazo de pincel chinés en negativo. Nel, a lúa insinúase apenas para que a rapariga non desista de preguntar. De preguntar sempre até encontrar quen lle ofreza a ponte dunha resposta cara a outras dúbidas e as súas preguntas. Oxalá que a encontre antes que desaprenda a curiosidade e medre para muller con fillos que dá desimportancias á lúa.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Manhã a preto e branco







Pesqueira vella. Goián






Ariño de dentro. Goián

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Soñar










Casa do Manolo "Xerelo". Goián