Mostrar mensagens com a etiqueta Raduan Nassar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Raduan Nassar. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de julho de 2011

Graves riscos

toda palavra é uma semente: traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga explosiva no seu bojo: corremos graves riscos quando falamos.
Raduan Nassar. Lavoura Arcaica (1975). Relógio D'Agua Editores. 1999

Pois, toda, toda palavra é semente. Mas sabiam já os antigos que nem toda semente será vida. Semente pode-se perder, ao sol, alabarada numa tarde ruim de agosto; sob a unha dum cavalo distraído que a esmagou enquanto, arreganhando os beiços, escolhia as ervas que mais no pasto lhe apraziam; no incêndio (pavoroso, como se diz nas crónicas) que nada respeita; numa rajada de ventos súbita que a lance a um rio onde nem peixe a coma. Semente pode-se estragar de mil maneiras, nem todas más, se má fosse a vida que delas nascesse já não nascendo, a inçar culturas daninamente ou páginas sem proveito. Semente há que já seja, desde o início, gora, que é como dizer só envoltório nem de ar que se respire. Como palavras que nada dizem aos outros, nem a um entre milhões que as poupe ao esquecimento. E é por isso que as palavras, digo, as sementes, devem ser peneiradas na ternura ou no ódio, viscerais e despudoradas, com o embrião inteiro dentro, o seu peso este, a pulsar, a abrir(-se) caminho na casca, talvez a risco de acabar num precipício fatal... e mesmo assim gritando-se sentido em eco que se prolongue em árvore, em insecto, em pássaro ou folhas mortas.