domingo, 30 de setembro de 2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Café gelado

Há dias, o senhor Luís, aproveitando que estávamos sozinhos, comentou-me que as águas tinham andado agitadas na esplanada. A conversa interrompeu-se pela chegada dum cliente a ocupar uma mesa vizinha e fiquei sem saber de certo o que aconteceu. Mas, a pouco que se observe, comprova-se que há mudanças de atitude entre alguns fregueses e constata-se a desaparição doutros.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

No meu céu




Lua e Vénus
12 de setembro de 2012

07.18h (fuso horário de Berlim)







 07.56h (fuso horário de Berlim)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Das etimologias populares

Pode-se pensar que estou concentrada a ler o César Vallejo na sua vertente surrealista. E estou. Só que por vezes há na esplanada frases dispersas pronunciadas num tom que se eleva sobre o rumor confuso das vozes. Ignoro qual foi frase anterior, também não me interessei por prestar ouvidos à seguinte. Fiquei-me pelo instante. O gajo levantou-se da cadeira, pegou no telemóvel que estava sobre a mesa e mostrou-o aos seus dois interlocutores como o fiscal mostra ao tribunal e ao público presente na sala a prova definitiva do crime (quer-se dizer, girando o torso ao de leve para a direita sobre as ancas, os olhos escancarados, uma celha mais arqueada do que a outra):

—Isto é um telemóvel, te LE móvel, ou seja: LE vo-te comigo —declarava enquanto fazia de conta que ia enfiar o dito no bolso das calças, para finalmente pousá-lo de novo na mesa e, de novo também, sentar ele.

Quem quer mais poesia, digo, provas?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

domingo, 19 de agosto de 2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O desfecho

Vem aí o homem que se suicidou no outro dia —disse-me o senhor Luís no domingo, enquanto ele entornava cervejas e eu páginas.

Fora no regresso a casa que eu vira. Era na quinta, eu atravessava de bicicleta a ponte e na ponte, bem arrumadinho no chão o embrulho, duas sapatilhas pretas encima, de solas para o ar, uma camisa branca aos quadros azuis e um cinto a prendê-lo num dos barrotes inferiores da varanda. A palavra suicida atravessou-me a mente sem eu a chamar. Parei. Olhei para todos os lados. Ninguém. Assomei-me ao rio, olhei para a água. Nada. Ali mesmo, a profundidade era escassa, não dava para afogamento imediato, antes para partir o espinhaço e tudo quanto é corpo. O barco da Marinha aproximava-se a bastante velocidade, passou por baixo da ponte em direcção ao Arinho de Figueiró. Era a direcção das correntes? Viram alguma coisa eles? Vacilei. Não fazia sentido ligar para o 112. Não havia (já) urgência nenhuma ali. Porém... Ninguém passava. Cheguei a casa e subi as escadas, procurei o número da Guardia Civil, peguei no telefone, liguei. Contei a minha história.

No princípio, quando o senhor Luís falou, pensei que vinha a caminhar pela encosta acima um homem que tentara suicidar-se e "salvaram" mas logo entendi que se referia a um cortejo fúnebre que passava, lá embaixo, no terreiro da Vila. Levantei do livro os olhos escancarados: amarrei os pontos. Contei a minha história.

Não demorei a ir embora e ainda ultrapassei a procissão de morto e vivos, séquito sem padre nem estandarte, quase já à altura do cemitério, ali no fim da ponte...

Dias mais tarde ainda vim saber por outro vizinho que presenciou a retirada do cadáver do rio —o corpo partido, partido e afogado— que o homem se atirara exactamente de onde deixara a roupa como sinal.

sábado, 28 de julho de 2012

A descoberta

É sábado, mas não parece. Ou talvez parece até ao ponto de ser-se: aos sábados abandono o lugar cativo na minha esplanada às massas e refugio-me no bar dos bombeiros. Aquilo é paz em tamanho familiar e por ausência. Lá encontro o guarda do Convento mas os neurónios movem-se ao ralênti e só reconhecem quando ele já foi embora na carrinha... Desgraçada é que eu sou, e mais que irei ser: doravante é tudo sempre às arrecuas.

Do resto, é o menu do costume: descafeinado (triste) e água das Pedras, o único de borbulhante que na minha vida entra... ou não!?: tiro o celofane ao livro de contos em edição leve e cuidada duma chamada Companhia das Ilhas, e como é bom saber que ainda há ao meio do Atlântico quem sonhe para quem fica lastrado em terra firme:

"Curioso, soergueu o morto pelos colarinhos e deu-lhe duas galhetas só para lhe sentir os ossos. Este cabrão levou a vidinha a comer galinha, pensou. Virou-o de novo e perscrutou-lhe os bolsos de trás. Tinha o bilhete de identidade moçambicano. Leu: Zibelina Capristano Guente, casado. Quem se deitaria com tão fraco descaminho?"

António Cabrita. "A boa vizinhança". Ficas-me a dever uma noite de arromba
Companhia das Ilhas. Lajes do Pico. 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Realidade





Ilha da Boega. Rio Minho
A sul dos meus olhos




Onde tudo se confunde

Inciso e directo

Andan a ser todos idénticos os amañeceres: neboeiro, pardais que chirlan, galos que cantan, asperxedores que se abren á hora programada no xardín do veciño, un can ou dous que ladran. E, pouco e pouco, o volume sobe. Algunha alma madrugadora que saíu a camiñar de mañá cedo. E eu, que a ver se me poño a traballar xa.

(Entre tanto, os que teñen oportunidades e pasta aínda estrágana en ir de vacacións á Madeira, cando existen os Azores. E logo quéixanse. Querían era un pau na cabeza. Ben dado.)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Verde que te quiero verde











Acorda-me o despertador e quase do único que tenho de vontade é de desliga-lo. Desligo. Uma hora mais tarde acordo. É dia. Está cinzento (os nevoeiros de agosto andam perdidos no calendário). Na rádio a música é a mesma de ontem: réquiem, um réquiem medonho e desafinado. Já na mesa, debruçada sobre a chávena, só tenho vontade de continuar a dormir, ali mesmo, o nariz enfiado nem que seja no arremedo de café que inventei para não me hipertensar (prometi ao meu médico não morrer antes de ele se reformar, haja paciência). Mas afinal, o verde do azeite sobre o pão, trazidos ambos da outra margem do rio conseguem que eu abra os olhos e diga: "Enfim...".

sábado, 7 de julho de 2012

A festa nacional

Está así un sábado de mañá coma tantos, poalla cincenta e boa temperatura, a paxarada como que este outono non é con eles e na radio un coro canta as glorias ao deus do santilorio ladrón de petos e pergameos.

Habemus codices, que é coma quen di materia para rexouba e sorna transformada nas terrazas a cuberto do orballo en leria e gargalladas, ofensas á presunción de inocencia, ao concepto da familia que reza unida ratea unida, ao misal, ao rosario (quen sabe, talvez, tamén produto de latrocinio?) e aos cartos baixo e no ladrillo. Repártense minutos de gloria ao torto e ao dereito: comisarios, deáns, alcaldes, presidentes e pobo: os tres estados medievais xuntos nun rectángulo de plasma ou led con subtítulos. Os pallasos esborranchan o sorriso plástico e a levita ante o espello do camerino, que o circo non morreu.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Em pôr-do-Sol

Continuo a ouvir o adágio
em andamento que me afasta
para mais longe ainda
dos clarins e os espaventos
e nem sequer estás tu já
para me desvendares os porquês
de tanto que não compreendo.

Simbiose

domingo, 1 de julho de 2012

Contra a melancolía




Hypericum perforatum
herba de san Xoán (gl.),
erva-de-são-joão (pt.), 
hierba de san Juan (cast.)

A (imposible) arte de pasmar

Penso que, se cadra, o máis estable dos meus desacougos devén de non fumar. Fumase eu, encontraba logo razón que nese instante ou en tantos outros abortados me sostivese o divagar dos ollos sobre o silencio en distraídisima reconcentración. Foi mesmo ese o sucedido incerto desta mañá, nas horas que anteceden o mediodía, sol limpo, airexa agarimando o corpo depilado ou cabeludo, a paxarada case nun calar de fondo a repousar das angueiras cotiás, insectos zunindo dereito, arañas tecendo a recú, veciños na misa (de comuñón e cadaquén a orar por si). Aquilo, se non era criar pasmo, parecía: nada urxente para facer, o tempo desentendido de min. Foi en tal cataléptico minuto, segundo arriba ou abaixo, cando dei en cavilar que me faltaba un cigarro nas mans ao que prender lume e letarxia. E aí tiven que sacudir a poeira das pálpebras para ver se enredaba aínda a conciencia nun desútil labor.

Completitude






Oenothera erythrosepala

sábado, 30 de junho de 2012

Promesa matinal





Cucumis sativus
cogombro (gl.), pepino (pt.),
pepino (cast.)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A vida é isto (por exemplo)





Cucurbita pepo 
cabaciño (gl), abobrinha (br.),
curgete (pt.?!), calabacín (cast.)



E come-se.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Á sombra do liquidámbar







Picus viridis
peto verdeal (gl.), pica-pau-verde (pt.),
pito real (cast.)

terça-feira, 26 de junho de 2012

domingo, 17 de junho de 2012

Contraponto invertível

Ou então, digo eu, será o nada:
um vazio mais a sombra
um abismo, a sua ansiedade,
um espelho, o vidro duro,
infinitos que serpeam
engolidos em si próprios,
sem origem, sem final.

Indoméstico o silêncio
quebra o pentagrama
e desprendem-se palavras,
ténues missangas de orvalho
que esplendoram no chão
anunciando a alvorada:
ou então, digo eu, será a vida.



"Escada sem corrimão" de David Mourão-Ferreira. Música de Pancho Salmerón

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Cidade?

Uma vez pediram-me para responder a um questionário. Na segunda pergunta devia indicar em que cidade vivia. Deitei o questionário ao lixo.

Uma vez um pediram-me amizade no facebook. Através duma mensagem perguntaram-me em que cidade vivia. Deitei a amizade ao lixo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Carruaxe






Centro da Memória
Vila do Conde



Estou a pensar seriamente en mudar de medio de transporte.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Mazada

De todos os traballos, o máis pesado é o que non dá traballo ningún facer.