sexta-feira, 25 de maio de 2012

Formigando

(E não é que tenho a caixa dos correios cheia de estrelinhas amarelas com encomendas?)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ao futuro das luces

Pedía para morrer unha fiestra con vistas,
talvez á memoria primeira,
talvez ao futuro das luces,
un fragor de mar encarneirado
ou o murmurio miúdo dun manancial bulindo,
fuxindo para onde o mundo fose inmenso
e dos ollos meus preso e libre,
que o camiñase sempre na presenza
leve do corpo que non doe.

Adormezo de fiestra aberta,
non me vaia apañar o día
nas tebras febrís da túa ausencia.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Uma ilha que não é







A Nova Marina a couso do Rei do Mar

Ao Luandino

—Isto aqui —disse Ele— é um sítio bom para morrer.

Tirara-me as palavras da ponta da alma e à nossa volta era só mar que havia, mar sossegado. Pensei que era, era mesmo, porque um sítio bom para morrer é sempre aquele em que é bom viver . Talvez era do cinzento-azul. Talvez do silêncio manso. Uma ilha que não é ilha porque tem uma ponte delicada que a une ao continente: porta a toda a hora aberta, passagem para caminhar sobre as ondas, deuses nós de cada dia.

Tentei imaginar como seria a ilha sob temporal. Gostei do que ouvi. Pensei que era um sítio bom para respirar e fechar os olhos à escuridão.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Escritas de mares ou mares de escritas



Galiza e Angola: 
O Anxo Angueira e o José Luandino Vieira
a arca do galeón Rei do Mar 
zarpando da Illa de Arousa








 

domingo, 13 de maio de 2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Almorzo

Están abertas todas as fiestras da casa. Aínda hai nada zoaba a xistra. Agora é preciso franquear o paso ao canto da poupa e as pitiños de pardello que reclaman, agoniosos, o almorzo. Está todo en calma. Non se move unha palleira. Dóeme todo aínda mais menos. Onte, no partido de hóquei, demostrouse que a dor é unha ilusión óptica. Quen sabe, de aquí a outros cincuenta anos, non estou (co pau xa dominado) de máxima goleadora en pista de xeo no inferno. Os vermes que me respecten. Vou alí botar unhas fragullas de pan à pardellada.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Paracetamol

Dóeme o corpo enteiro como nunca me doeu. Mentira. Doe como doe agora. Vou tomar un analxésico. E destruir cartas, conversas, pasados. Renego de min, do que fun. Tamén do que podía ser se. Viñeron cobrar o recibo mensual do seguro de morte. Non se debe deixar de pagar a non ser o día de autos. Pago, pois, relixiosamente. É agoirento sinal de descomposición futura (ou cinzas diluíndose pastosas na terra), antecipo do inferno.

P.S.: Conste que isto non ten nada que ver coa miña lección frustrada de voo.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Arroz de pombo

Pensei que devia escrever o que me apetecesse. Não é fácil. Podo-vos contar, porém, o que me aconteceu. Relato estrito. Despido. Aqui um silêncio ou pausa. Eu levantei-me. É o que a gente deve fazer em casos assim, se puder. Levantei-me porque podia. Levantei-me do chão. Não duma espreguiçadeira, dum banco, duma cadeira, duma poltrona, dum sofá, duma cama. Não-não-e-não. Do chão. Não decidira sentar no chão, não. Foi queda. Livre mas não voluntária. Acontece. Aconteceu-me. Flashback: que é como dizer: rebobina, recua, retrocede. Doíam-me muito os joelhos. Tanto, tanto. Era a dor toda ali concentrada. Com certeza, não dava alaridos (a dignidade não permite escândalos). O rosto contraído. As mãos, apalpavam à procura de peças musculo-esqueléticas quebradas. As luvas evitaram o esfolamento das mãos enquanto os braços aguentavam a força do impacto. Saí a voar por cima do guidão. À cadela teve um apertão de ventre dessincronizado com a suave descida. Amarrei a trela onde não devia. Pus o capacete (na cabeça) e as luvas (nas mãos). Após o almoço escovo os dentes, sempre, e pego nas chaves de casa, ás vezes.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Madrugada

É tanta a escuridade fóra cando esperto
canto dentro: non hai nin sombra
de camiños ao infinito: é só silencio manso
da chuvia sobre a herba talvez verde.

Foi para min o principio
(e será sempre ao final)
o Verbo.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A frase

O Perneta desce do carro ajudado pelo amigo que todos os dias o traz para beber um café e dizer uns palavrões. As cerejeiras japonesas, com a chuva e o vento de ontem, semearam a rua de pétalas cor-de-rosa.

Olha —diz o Perneta enquanto pousa a perna boa e o olhar no passeio—. Esta merda é um espectáculo!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Unha visita (inesperada, claro)

Foi durante un intervalo de sol. A chuvia fixérase contida nunha nube pasaxeira como todas as nubes son. As follas verdegaias do carballo rebrillaban, punteadas de cristalinas doas grávidas, ou sexa, pingas de auga que máis tarde máis cedo irían rebentar. Estase a ver que é abril, en toda a súa crueza e crueldade. Eu estaba espetada no teclado (en fin!) cando de repente, o meu cerebro captou un rumor estraño, tanto como para o arrancar da concentración en que o tiña preso o próximo desvendamento da identidade do asasino (ou iso espero porque o libro está nas últimas e ai se non!). Que aduanadas estarán para aí a tramar os cans?, deduciron os amolecidos miolos moi irreflexivamente. Pois non. Era unha poupa. Unha poupa na miña fiestra que batía as asas admirada ante a beleza propia (da poupa, digo, non a miña, por favor). Engaiolada de si, bicábase no bico, petando no vidro coma quen peta na realidade e non. A poupa Narcisa, que así se chamaba, abría e fechaba o abano da curupela de sorpresa en sorpresa. Con certeza, ningún lago das terras africanas onde invernara unha outra primavera a agasallara cunha imaxe tan multicolor e nítida. Espelliño, espelliño..., parecía dicir, mentres posaba, ora de fronte, ora de perfil, e bicaba máis unha vez o reflexo do bico. De pronto, pensou mellor, e levantou voo. Para min que foi namorar unha poupa que feda como é debido.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Os bois (e as vacas) polos nomes...

Fantasiei que se no largo da cereixeira aínda houbese cereixeira no lugar dese nada que trouxo pola miña aldea o progreso cativo a substituir terra por formigón no chan e as pedras dos valados por bloques, ainda podiamos, agora, que é tan primavera e está así unha airexa de espeluxar a xente, sentar ao pé dela e deixar que na cabeza nos nevasen pétalos brancos, que non arrefecen as ideas de contar historias, debulladas, unha a unha, cos dedos da lingua. Podían, logo, pasar, dun lado e doutro, os veciños a turrar pola trenla amarrada á Pinta ou á Marela, consoante as cores, que turraban do carro a camiño das leiras, sen que ninguén se incomodase nin que nun repente, naquel abaneo das ancas que sempre move os intestinos, lles viñese (ás vacas, digo, non aos veciños) a gana de dar de corpo alí mesmo no medio e medio, e a cereixeira, agora, que estaba naquela explosión de vida, até agradecía porque a bosta que cae na terra é esterco, non merda. Merda é, por exemplo, as latas de pintura e aceite, de refrescos, os envases espallados todos polos camiños e montes, polo ríos, polos mares; merda é tamén o saco de plástico aberto, co contido ciscado, xunto aos contedores do lixo do largo da cerexeira, que abafa tanto a vontade de fantasiar.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Aviso

O senhor Luís deixou a cerveja ra-di-cal-mente. Não largou foi o tabaco, mas fuma menos. O alarme saltou no dia da greve geral, aquele em que a mesa dele, na esplanada, era um quadrado amarelo inteiro e só. Estivera a abusar, disse. Agora bebe água, fresca, sem gás.

O mundo faz de conta que tudo à nossa volta está na mesma. Não está, não.

domingo, 1 de abril de 2012

Nem

Contemplo a página em branco: é uma mesa vazia na esplanada, o corpo franzino dele já nunca mais gente, nem cigarrilha aos lábios presa na mão fina, nem o ouvir para dentro, nem o brilho nos olhos quando fazia festas à Lima, nem os pulmões cansados pela encosta acima ai tão devagarinho.

Agora é terra na terra. Uma memória breve. Morreu o senhor Eduardo.

domingo, 25 de março de 2012

A traição











A esplanada estava deserta. Nem sequer o senhor Luís, freguês constante, com direito a mesa reservada, apareceu. Parecia um feriado qualquer, naquele silêncio da primeira hora da tarde na rua, quando ainda as famílias estão reunidas à mesa em volta da azia. Vinha, porém, no ar um bafo pesado, de resignação, que se reflectia no olhar esquivo dos empregados que atendiam atrás dos balcões, também no café onde comprei o pão e no quiosque onde agora me guardam o JL. Só depois, de regresso à casa, enquanto atravessava a ponte, reparei em que era 22 de março de 2012.

(Algum dia terei de estudar o que é que tem essa ponte que faz com que o meu cérebro funcione.)

sexta-feira, 23 de março de 2012

o pintasilgo

Minúscula ave
que estende de cor
memoria e asas.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Outrora

O derradeiro verso
nunha carta perdida
de papel antigo.

terça-feira, 20 de março de 2012

Primavera

—E o inverno nunca mais vem...

Foi isso que disse o senhor Luís, à maneira de despedida, logo que me levantei da mesa para ir embora. Quando cheguei, ele estava debruçado sobre uma colorida dobre página do jornal, a deliciar-se numa passarela estática de belezas em fato de banho. Está calor. Diz-que hoje começou a primavera e o sangue, pois... esquenta. Manda a tradição animal que esta época do ano traga as andorinhas a sulcarem os ares esquivando os assassinos cabos opticamente eléctricos enquanto enfiam moscas e outra bicharada voadora pela goela abaixo sem descompor nunca a vertiginosa gracilidade, como quem come tremoços. Porém, a nossa esplanada, com a suba de temperaturas, o que mais traz é papagaio velho. Se pelo menos chovesse, hein, senhor Luís?

sexta-feira, 16 de março de 2012

De ollos para o ar

No voo da garza
o vento finxe
que bate as asas.

terça-feira, 13 de março de 2012

Guirlache

Pasei media mañán ás voltas da palabra que precisaba. Tiña un ch algures. Até aí sabía. Busquei por canto é sitio ou recanto de palabras perdidas nunca achadas: dicionarios, internet, memoria. Nada. Procura va, fútil desespero. [Xantei.] Saín de bicicleta ao descafé e no regreso, no esforzo pedalante dunha encosta, fixo, plop, saltoume aos dentes, coma un sorriso que triscase aos anaquiños.

domingo, 11 de março de 2012

Irreverencia







Goián, barrio de Tollo



No fondo, o que ela quería era ser guitarrista, pero á falta doutro instrumento, bótase man do que se ten máis á man. E o sentimento con que ela toca...?

sábado, 10 de março de 2012

Ende ben











Dóenme os pulsos e o silencio
Fáltame o ar: as palabras rachan
O día é unha cápsula de material indescifrable
Non teño respostas (nin fe)
Onte ceamos crise pero o tinto era bo.

domingo, 4 de março de 2012

Silueta






Athene noctua
moucho (gl) ; mocho-galego (pt); mochuelo (cast)

A contracorrente

Queixouse de que a vida estaba difícil para eles (para nós, dixo, como se fosen caste á parte do común dos mortais), os músicos, os poetas, os escritores. Como se a vida non fose (e fose, digo, non estivese) sempre difícil, uns días máis, outros algo menos, para case todo o mundo. Só quen tivo unha vida agasallada, unha protección extrema, un cordón umbilical artificialmente ligado, pode crerse vítima exclusiva dun mundo inxusto cando o cordón eventualmente racha. O mundo é inxusto. A vida é difícil. Nin sequera chove cando consideramos que debera chover por moito que lles poñamos nome ás estacións e aos meses, por moito que teñamos fe. Nada nos diferencia dos salmóns e a súa loita pola eternidade a contracorrente.

sábado, 3 de março de 2012

Incertezas

Há dias que o senhor Eduardo não vem pela esplanada. Desde que me apanhou a gripe e passei uma semana sem pisar na rua nunca mais o vi. Hoje perguntei por ele ao senhor Luís. Respondeu que estava com pneumonia. Não tinha mais notícias. Depois pediu informações a uma vizinha que subia a encosta. Ela também não o tinha visto nem sabia nada ao certo. Prometeu perguntar e trazer recado.

Nem me lembra porquê, acabámos a falar do desacordo ortográfico. Na certidão de nascimento dele diz que foi Luiz Felipe D'Almeida, mas no bilhete de identidade agora é Luís Filipe de Almeida. A gente perde ar nobiliário enquanto ganha anos. Tudo se transforma: certidões não são certezas.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ao cambio

En Goián todo o mundo sabe que un bispo no Brasil é, ao cambio, na Galiza, un sancristán (ou era, que os tempos, benquerido Bob, están sempre mudando). Pois ben, se hai por aí alguén que utilice alegramente os tradutores automáticos, pode probar a traducir Manuel Fraga (q.p.n.d) de galego para inglés no excelentísimo tradutor automático do google.

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P.S.: Até o máis perralleiro tradutor (digno do oficio que exerce) humano sabe que os nomes propios non se traducen.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O mais-velho e o iá-ndenge












Angola esteve a 4 de fevereiro de 2012 na Porta XIII.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Mais uma rara avis...



Plegadis falcinellus
: ibis preto (pt), mazarico mouro (gl), morito (cast)

Insensibilidade e outras vidas possíveis

Hoje desacordei do mundo. Continua lá fora frio, quase como dentro (sem o aquele tal cá do vento e a sua sensação epidermicamente des-térmica). Não tenho nos dedos sangue (dedos a mais na minha vida para um coração pequeno que cansou de bombear e bombar) e escrever é uma dor que não se sente, uma conquista da insensibilidade. Depois durmo, durmo muito a horas e deshoras, não consigo convencer o corpo a vencer e ele é uma desistência dos sentidos: é assim que os pesadelos me invadem as noites e as deshoras da sesta: porque é preciso viver nem que sejam as mentiras dum labirinto de que não se sai, como na própria vida, que nunca acaba, porque tudo é matéria que se transforma, até em cinza que será alimento para plantas verdes ou cogumelos coloridos. É carnaval, lembrem: há corrida de carros de mão na aldeia. Serei espectadora de câmara a tiracolo (nas mãos, os dedos regelados sempre, pessoa com luvas não preme botão, sem luvas também não preme nada), se o sono da tarde (esse tirano!) não me tira a vida.