Está así un sábado de mañá coma tantos, poalla cincenta e boa temperatura, a paxarada como que este outono non é con eles e na radio un coro canta as glorias ao deus do santilorio ladrón de petos e pergameos.
Habemus codices, que é coma quen di materia para rexouba e sorna transformada nas terrazas a cuberto do orballo en leria e gargalladas, ofensas á presunción de inocencia, ao concepto da familia que reza unida ratea unida, ao misal, ao rosario (quen sabe, talvez, tamén produto de latrocinio?) e aos cartos baixo e no ladrillo. Repártense minutos de gloria ao torto e ao dereito: comisarios, deáns, alcaldes, presidentes e pobo: os tres estados medievais xuntos nun rectángulo de plasma ou led con subtítulos. Os pallasos esborranchan o sorriso plástico e a levita ante o espello do camerino, que o circo non morreu.
sábado, 7 de julho de 2012
sexta-feira, 6 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Em pôr-do-Sol
Continuo a ouvir o adágio
em andamento que me afasta
para mais longe ainda
dos clarins e os espaventos
e nem sequer estás tu já
para me desvendares os porquês
de tanto que não compreendo.
em andamento que me afasta
para mais longe ainda
dos clarins e os espaventos
e nem sequer estás tu já
para me desvendares os porquês
de tanto que não compreendo.
domingo, 1 de julho de 2012
A (imposible) arte de pasmar
Penso que, se cadra, o máis estable dos meus desacougos devén de non fumar. Fumase eu, encontraba logo razón que nese instante ou en tantos outros abortados me sostivese o divagar dos ollos sobre o silencio en distraídisima reconcentración. Foi mesmo ese o sucedido incerto desta mañá, nas horas que anteceden o mediodía, sol limpo, airexa agarimando o corpo depilado ou cabeludo, a paxarada case nun calar de fondo a repousar das angueiras cotiás, insectos zunindo dereito, arañas tecendo a recú, veciños na misa (de comuñón e cadaquén a orar por si). Aquilo, se non era criar pasmo, parecía: nada urxente para facer, o tempo desentendido de min. Foi en tal cataléptico minuto, segundo arriba ou abaixo, cando dei en cavilar que me faltaba un cigarro nas mans ao que prender lume e letarxia. E aí tiven que sacudir a poeira das pálpebras para ver se enredaba aínda a conciencia nun desútil labor.
sábado, 30 de junho de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Contraponto invertível
Ou então, digo eu, será o nada:
um vazio mais a sombra
um abismo, a sua ansiedade,
um espelho, o vidro duro,
infinitos que serpeam
engolidos em si próprios,
sem origem, sem final.
Indoméstico o silêncio
quebra o pentagrama
e desprendem-se palavras,
ténues missangas de orvalho
que esplendoram no chão
anunciando a alvorada:
ou então, digo eu, será a vida.
"Escada sem corrimão" de David Mourão-Ferreira. Música de Pancho Salmerón
um vazio mais a sombra
um abismo, a sua ansiedade,
um espelho, o vidro duro,
infinitos que serpeam
engolidos em si próprios,
sem origem, sem final.
Indoméstico o silêncio
quebra o pentagrama
e desprendem-se palavras,
ténues missangas de orvalho
que esplendoram no chão
anunciando a alvorada:
ou então, digo eu, será a vida.
"Escada sem corrimão" de David Mourão-Ferreira. Música de Pancho Salmerón
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Cidade?
Uma vez pediram-me para responder a um questionário. Na segunda pergunta devia indicar em que cidade vivia. Deitei o questionário ao lixo.
Uma vez um pediram-me amizade no facebook. Através duma mensagem perguntaram-me em que cidade vivia. Deitei a amizade ao lixo.
Uma vez um pediram-me amizade no facebook. Através duma mensagem perguntaram-me em que cidade vivia. Deitei a amizade ao lixo.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
terça-feira, 12 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
Também ja foi dito
Quem pode ser no mundo tão quieto,
ou quem terá tão livre o pensamento,
quem tão exp'rimentado e tão discreto,
tão fora, enfim, de humano entendimento
que ou com público efeito, ou com secreto,
lhe não revolva e espante o sentimento,
deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?
(excerto da "OITAVA", a D. António de Noronha sobre o Desconcerto do Mundo, de Luís Vaz de Camões)
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sábado, 9 de junho de 2012
Arrolo
Convento de S. Paio
Vila Nova de Cerveira
—É unha rola iso que canta? —preguntou.
—É un pombo —contestei coa certeza absoluta de quen de repente, nas asas daquel arrolo, fora transportada á infancia, a moitos quilómetros de alí.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Vedoiro
É ser con pernas que abunda nestes tempos. A cousa está fea, di un, e deseguida outro responde que aínda está para vir o peor. Anticipar o futuro é doado: temos (case) todos o abismo diante. Vai ser o masacre. Acórdavos aquel chiste? Pois non, non vai haber merda para todos.
Água que não hás-de beber...
O indivíduo aparece embrulhado num cobertor no interior dum contentor de lixo (secção resíduos orgânicos: bem-hajam os assassinos com sentido cívico), muito pálido, sem respiração aparente e com três facadas, nenhuma delas mortal, em lugares diferentes do corpo inerte (uma na coxa da que a artéria femoral não resulta afectada, duas no costado esquerdo que não alcançam órgãos vitais). Certificada a morte do suposto defunto e autopsiado, ele morre definitivamente. Nos papeis diz que foi de excesso de água nos pulmões.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Almoxarife
Presentei hai días os meus papeis, cos números todos certiños a ocupar os cadros correspondentes. O almoxarife revisou as contas mediante unha calculadora que tiña ao lado e coa que tocaba unha música vertixinosa e estridente, tal que un piano desafinado en dó. Mirou para min e estendeu a man, aberta cara ao ceo.
—Ao César o que é do César —esixiu.
Paguei co único de valor que me restaba: os ollos.
—Ao César o que é do César —esixiu.
Paguei co único de valor que me restaba: os ollos.
terça-feira, 5 de junho de 2012
O homem de preto
Não gosta de chuva. É por isso que a luz vai atrás dele. Em dias de temporal os olhos perdem-se-lhe por histórias de dentro. Tem sempre palavras como estrelas na língua para oferecer à escuridão dos tristes. A pele dele sente-se no abraço macia e cálida, como uma carícia de nunca esquecer nem nas memórias apagadas. Veste muito de preto para absorver os raios solares todos, um por um, e devolvê-los em frases de renda colorida pintadas.
Ou mais arte com menos matéria
More matter with less art.
Gertrude, acto II, cena ii
Cenografia para o Hamlet
Zé Rodrigues
Convento de S. Paio
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segunda-feira, 4 de junho de 2012
sábado, 2 de junho de 2012
Embaraço não é gravidez
Valter Hugo Mãe na apresentação do seu
O filho de mil homens em Vila do CondeAmanhã, domingo 3 de Junho, o Valter Hugo Mãe vai estar na Feira do Livro de Vila Nova de Cerveira, na hora da sesta, pelas 16.00 (hora de Lisboa), 17.00 (hora de Berlim). Diz-que vou ser eu a apresentá-lo... Mais não digo (não vá ficar muda antes da hora a qualquer hora).
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Má vontade
Está calor. Está um calor... A esplanada parece mais um galinheiro. Eu, não parece, mas estou com vontade de matar alguém ou tudo. Tudo mesmo. Tudo em volta. Dissimulo o olhar assassino entre as letras do jornal. Apetece-me levantar-me e partir a loiça toda e com os nacos de loiça partida degolar pescoços, cortar línguas, ceifar cabeças. Ânsias insaciáveis de matar experimento. Todos mortos à minha volta menos o senhor Luís e a empregada, que sorri e pede licença. Todos mortos. E aquele silêncio divinal, ai, nunca mais vem.
Mas está calor. Está um calor que me mata. É só por isso que afinal não mato ninguém. E também porque este ano a cerejeira deu, até que enfim, cerejas (os melros que se cuidem do calor que está).
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