Tenho um corpo em que a dor madruga
(nem por isso o alento acorda).
quarta-feira, 10 de abril de 2013
domingo, 7 de abril de 2013
Ao inimigo que foge...
E um dia destes tender-me-ei uma ponte, nem que seja de lata. Porque nada há a pior do que ser um o próprio inimigo.
Despedida anunciada
Alterar a estrutura duma pergunta perfeitamente traduzida porque a resposta possa induzir a entender que é gramaticalmente incorrecta e provocar, portanto, que o implacável caça-gralhas bem acomodado na sua poltrona crucifique por isso mil páginas de trabalhinho, chama-se, acho, auto-censura, ou até os mesmíssimos de que careço (e a falta que eles me faziam!).
Mais dois meses e mando tudo às favas, com ou sem um par de.
Mais dois meses e mando tudo às favas, com ou sem um par de.
Mensagem truncada
As palavras escritas, quando não são colocadas por quem sabe, podem induzir a equívocos que só na poesia são arte, e nem isto é poesia nem eu sou poeta.
sábado, 23 de março de 2013
Tão de manhã cedo
É sábado e eu viajo pelo Galway das Irlandas: música e rumor de mar, esse clássico, e talvez o sal. E de repente apeteceu-me um malte (sei lá, Cork nos ouvidos fura). Tantos lugares comuns desabitam-me e um silêncio: um esquecimento frio na cova da memória.
Nada faz sentido à luz da noite. Nem a chuva.
Nada faz sentido à luz da noite. Nem a chuva.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Desfase temporal
Un día na vida de Leopold Bloom son sete meses da miña vida (e seguen sen darme as contas).
P.S.: A 4 de novembro de 2013, foi un ano: as contas non deron.
P.S.: A 4 de novembro de 2013, foi un ano: as contas non deron.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Canto de primavera
Floriam galinhas no meu quintal e eram
como primaveras. Dançai, dançai, minhocas!,
gritei, nos bicos das aves e contorcei-vos
que melhores dias não virão e a vida
não vos há-de dar asas nem voos maiores.
É agora ou nunca a vertigem, o sonho
que agoniza voejante, inútil, malogrado,
a dois palmos sobre a terra e mas
será ovo, na minha boca famenta
fecundo, branco, amarelo. Dançai,
que amanhã serão bico as minhas mãos
e minhoca bailarina o pescoço delas.
como primaveras. Dançai, dançai, minhocas!,
gritei, nos bicos das aves e contorcei-vos
que melhores dias não virão e a vida
não vos há-de dar asas nem voos maiores.
É agora ou nunca a vertigem, o sonho
que agoniza voejante, inútil, malogrado,
a dois palmos sobre a terra e mas
será ovo, na minha boca famenta
fecundo, branco, amarelo. Dançai,
que amanhã serão bico as minhas mãos
e minhoca bailarina o pescoço delas.
quinta-feira, 14 de março de 2013
domingo, 10 de março de 2013
sábado, 9 de março de 2013
terça-feira, 5 de março de 2013
domingo, 3 de março de 2013
Somos imbéciles
E foi así como espertei hoxe, desimbecilizándome nun lento olhar para o mundo: escoitaba a radio e sorrín contendo as bágoas. Impóñense mudanzas de actitude. Ou entón, mellor ferrar un tiro no estómago. É noite aínda e non vai ser día tan cedo pero o sol xa está aí, vente ou chova.
Respirar fundo, abrir as mans e os ollos, plantar soños.
Devagar cara ao infinito. Tempo ao tempo.
Respirar fundo, abrir as mans e os ollos, plantar soños.
Devagar cara ao infinito. Tempo ao tempo.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Parábola
Un casco de cervexa lanzado a contra forte-vento-norte desde un coche describe unha traxectoria curva contraria á pretendida polo descerebrado que a lanza, isto é, non cae ao río para contaminacións futuras talvez do mar que é o morrer, antes, digo despois, voa por riba do vehículo que xa desapareceu da vista e descende vertixinoso sobre a beirarrúa sur da ponte pola que eu bicicleticamente circulo distraída dos perigos pois que a salvo cándida me cría de tránsitas ameazas para ir parar á bota en que rebota de volta á estrada, xusto a tempo de o escacharen, crach-cras-cris, os pneumáticos, pam-pfff-crgh, rachados do vehículo que lle pasou porriba.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
E agora a tenrura?
Hai un par de anos e medio, non teño dúbida, despois da consulta, escribiría un texto coma mínimo mordaz. Hoxe non, nin onte, e seguramente, mañá tampouco. Sáenme as palabras amargas, preñes de ácido cianhídrico, así tóxicas, e non podo, sequer, chapar unha onza de chocolate que neutralice o envelenamento progresivo do discurso.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Piano
Fiquei de olhos fechados a ouvir...
Isto, que podia ser o início dum poema, não foi nada: adormeci.
O máis difícil foi encontrar título.
Isto, que podia ser o início dum poema, não foi nada: adormeci.
O máis difícil foi encontrar título.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Involución
A ferida infecta no máis fondo
e o corpo larvado nun casulo
(en seda de silencios fiado)
de que non ha florecer avelaíña
mais o áptero cadáver dun soño.
e o corpo larvado nun casulo
(en seda de silencios fiado)
de que non ha florecer avelaíña
mais o áptero cadáver dun soño.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Quinta de merda
—Chego a esquecer que tenho telemóvel —confessou-me ela— porque para mim ninguém liga.
Não demorei mais do que hora e meia a compreender porque não ligava ninguém para ela.
Chegara ao pavilhão com o saco dos patins às costas (quinta, até que enfim! yepeehei!) e encontrei-a à porta (era eu quem levava a chave nesse dia).
—Já ia embora, pensei que não vinha ninguém —recebeu-me ela, tom de repreensão na voz.
E eu que não, que lá estava eu, chave e tudo, e viria, tinha de vir, alguém mais, com certeza.
Abri, entramos. Pousei o saco no chão e o corpo. Ela, a outra, nem foi buscar os patins. Ficou ao pé de mim, em pé, fala, fala, fala... Pus os patins, as caneleiras, as joelheiras, os protectores dos pulsos (um e dois, um e dois, um e dois, um e dois). Levantei-me, não caí, e ela, a outra, fala, fala, fala. E tentei entrar na pista, mas ela, fala, fala, fala. E meia hora depois ainda peguei no pau e na bola, para ver se assim, e nada. A cada movimento meu em direcção à pista, ela, a outra, puxava por mim com falas nada mansas (e eu com o pau na mão e más ideias na cabeça, mas rapariga educada que sou só pequei de pensamento e ainda ganhei lugar no purgatório), tenho para mim que o meu rosto era um poema, olhando para a porta (não vinha mais ninguém que me resgatasse?!), rodando as rodas no ar, batendo com o pau na bola não.
Até que disse eu, ó-caralho-vai-te-mas-é-foder, vou para a casa. E pousei o pau e o corpo no chão, e tirei patins, caneleiras, joelheiras, protectores de pulsos e arrumei tudo bem arrumadinho no saco. Levantei-me e disse, enfim, vou (vou embora, que já perdi tempo q.b.) e ela fala, fala, fala, ainda à porta (chovia, meudeus, chovia) e respirei fundo e desci um primeiro degrau e outro e todos, destemida. Ao carro, já! Quinta de merda hoje.
E ainda, quando eu já enfiava pernas, torso e cabeça, tudo enfim quanto é corpo, no carro, ouvi-a dizer, sarcástica:
—Olha que patinaste muito hoje...
E nem respondi, rapariga educada que sou, por não dizer pecados de alto, mas o meu rosto e os olhos nele eram um poema mesmo, todo inteiro. Não liga para ti ninguém, pois não?
Não demorei mais do que hora e meia a compreender porque não ligava ninguém para ela.
Chegara ao pavilhão com o saco dos patins às costas (quinta, até que enfim! yepeehei!) e encontrei-a à porta (era eu quem levava a chave nesse dia).
—Já ia embora, pensei que não vinha ninguém —recebeu-me ela, tom de repreensão na voz.
E eu que não, que lá estava eu, chave e tudo, e viria, tinha de vir, alguém mais, com certeza.
Abri, entramos. Pousei o saco no chão e o corpo. Ela, a outra, nem foi buscar os patins. Ficou ao pé de mim, em pé, fala, fala, fala... Pus os patins, as caneleiras, as joelheiras, os protectores dos pulsos (um e dois, um e dois, um e dois, um e dois). Levantei-me, não caí, e ela, a outra, fala, fala, fala. E tentei entrar na pista, mas ela, fala, fala, fala. E meia hora depois ainda peguei no pau e na bola, para ver se assim, e nada. A cada movimento meu em direcção à pista, ela, a outra, puxava por mim com falas nada mansas (e eu com o pau na mão e más ideias na cabeça, mas rapariga educada que sou só pequei de pensamento e ainda ganhei lugar no purgatório), tenho para mim que o meu rosto era um poema, olhando para a porta (não vinha mais ninguém que me resgatasse?!), rodando as rodas no ar, batendo com o pau na bola não.
Até que disse eu, ó-caralho-vai-te-mas-é-foder, vou para a casa. E pousei o pau e o corpo no chão, e tirei patins, caneleiras, joelheiras, protectores de pulsos e arrumei tudo bem arrumadinho no saco. Levantei-me e disse, enfim, vou (vou embora, que já perdi tempo q.b.) e ela fala, fala, fala, ainda à porta (chovia, meudeus, chovia) e respirei fundo e desci um primeiro degrau e outro e todos, destemida. Ao carro, já! Quinta de merda hoje.
E ainda, quando eu já enfiava pernas, torso e cabeça, tudo enfim quanto é corpo, no carro, ouvi-a dizer, sarcástica:
—Olha que patinaste muito hoje...
E nem respondi, rapariga educada que sou, por não dizer pecados de alto, mas o meu rosto e os olhos nele eram um poema mesmo, todo inteiro. Não liga para ti ninguém, pois não?
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Vai à vida...
—Mas, olha, Maria, que se a gente não tratar logo disso, ela vai à vida...
Foi o que o Orlando, muito sério, me disse e eu fiquei (assim, tipo) aterrada, isto é: apavorada e em terra. Não demorei mais o remédio e já a mota descansa na oficina, cuidados intensivos para a bateria moribunda, ou quem sabe?, morta. (Além do mais: as diurnas lucubrações metalinguísticas do caso pintaram-me meio sorriso no canto dum olho.)
Depois lembrei-me deste País, que está indo à vida, também..
A falta de razões, embora composta, é simples:
1. Mergulhei na revisão da tradução dum calhamaço da Literatura Universal (i.e: ocidental) que me adormece durante o dia e me acorda durante a noite. É um trabalho tão fascinante quanto ruinoso, de aí a contínua congelação dos meus dedos.
2. Os serões divido-os entre a leitura de Coetzee (Slowman) e o romance que um amigo desconhecido me confiou antes da sua publicação. E digo-vos: tenho o coração partido entre Austrália e Trás-os-Montes.
3. E que não me apetece ponta de um corno escrever.
Pronto. Ponto.
Foi o que o Orlando, muito sério, me disse e eu fiquei (assim, tipo) aterrada, isto é: apavorada e em terra. Não demorei mais o remédio e já a mota descansa na oficina, cuidados intensivos para a bateria moribunda, ou quem sabe?, morta. (Além do mais: as diurnas lucubrações metalinguísticas do caso pintaram-me meio sorriso no canto dum olho.)
Depois lembrei-me deste País, que está indo à vida, também..
A falta de razões, embora composta, é simples:
1. Mergulhei na revisão da tradução dum calhamaço da Literatura Universal (i.e: ocidental) que me adormece durante o dia e me acorda durante a noite. É um trabalho tão fascinante quanto ruinoso, de aí a contínua congelação dos meus dedos.
2. Os serões divido-os entre a leitura de Coetzee (Slowman) e o romance que um amigo desconhecido me confiou antes da sua publicação. E digo-vos: tenho o coração partido entre Austrália e Trás-os-Montes.
3. E que não me apetece ponta de um corno escrever.
Pronto. Ponto.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
domingo, 16 de dezembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
A palavra vestida
Para o Joxemari
É neste esplendor que se ancora toda a esperança que me resta:
ofereces-me a palavra vestida
para dançar, e eu canto-a.
Recrio a árvore da raiz viva
e da árvore, as aves; delas, aladas
as nuvens com o algodão doce
e as chuvas, arcos-íris tecidos
de nenhures a parte nenhuma
e fugazes como o som da água
que tilinta na pedra e faz cova,
cova da boca que pronuncia
a palavra terra mais que terra
e semeia ardentes nas mãos
as estrelas que desabrocham
no infinito mato do pedaço
de universo que me penetra.
É nestas trevas que se alarga
todo o caminho a que aspiro:
ouço o canto que me entregas
despido de véus, e danço-o.
As orelhas do burro
domingo, 25 de novembro de 2012
Faísca non
Son moitos os días do silencio
e lentos coma a espera e longos
sen a túa voz que os quebre,
sen que os releve o teu ollar.
e lentos coma a espera e longos
sen a túa voz que os quebre,
sen que os releve o teu ollar.
sábado, 10 de novembro de 2012
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Non irei
Féchase a noite sobre min
e respiro, pousado, e cingo
o alcance dos ollos ao límite
dos muros que me cercan,
en que me cerco, digo, agora:
féchome en min sobre a noite.
e respiro, pousado, e cingo
o alcance dos ollos ao límite
dos muros que me cercan,
en que me cerco, digo, agora:
féchome en min sobre a noite.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
Drama instantâneo
Tantas pessoas sem pedaços de pernas nas fotografias,
ignorantes de que apenas serão a sustentá-las os cotos
no chão que nem se vê
Foram quem sabe amputados os membros por uma mina
camuflada na base do quadro contra a parte das pessoas
que as empurra grávida
Sorriem todas como se não fosse com elas a ausência
visível dos pedaços de pernas em que se seguravam,
inconscientes da cena em que hão-de cair
ignorantes de que apenas serão a sustentá-las os cotos
no chão que nem se vê
e talvez já desistiu delas.
Foram quem sabe amputados os membros por uma mina
camuflada na base do quadro contra a parte das pessoas
que as empurra grávida
a caminho dos sonhos.
Sorriem todas como se não fosse com elas a ausência
visível dos pedaços de pernas em que se seguravam,
inconscientes da cena em que hão-de cair
após o clique.
sábado, 3 de novembro de 2012
As gavetas secretas
Não são as sombras da noite
que temo, antes as do dia
que me reptam até aos olhos
quando o sol sai e nada traz
a iluminar-me.
Não são as nuvens no céu
que evito, mas as próprias
da angústia a desabrochar
no peito como rosa de cristal
estilhaçado.
São mil espinhos por dentro
da pele a habitar-me as manhãs
e não há ravina em que despeje
o torrente do subtil tormento
que me rói.
Fagulhas são que me estalam
na profundeza óssea da alma
e como lascas rubras de aço
abrasam a fraca vontade
de vida.
Sombras que como nuvens alastram:
fagulhas que como espinhos se pregam
nas gavetas secretas do corpo
em que te guardo.
que temo, antes as do dia
que me reptam até aos olhos
quando o sol sai e nada traz
a iluminar-me.
Não são as nuvens no céu
que evito, mas as próprias
da angústia a desabrochar
no peito como rosa de cristal
estilhaçado.
São mil espinhos por dentro
da pele a habitar-me as manhãs
e não há ravina em que despeje
o torrente do subtil tormento
que me rói.
Fagulhas são que me estalam
na profundeza óssea da alma
e como lascas rubras de aço
abrasam a fraca vontade
de vida.
Sombras que como nuvens alastram:
fagulhas que como espinhos se pregam
nas gavetas secretas do corpo
em que te guardo.
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